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Archivos de Zootecnia

versión impresa ISSN 0004-0592

Arch. zootec. vol.61 no.233 Córdoba mar. 2012

http://dx.doi.org/10.4321/S0004-05922012000100009 

 

Comportamento ingestivo e parâmetros fisológicos de novilhos alimentados com tortas do biodiesel

Ingestive behavior and physiological parameters of steers fed with biodiesel cakes

 

 

Correia, B.R.1; Oliveira, R.L.2; Jaeger, S.M.P.L.3; Bagaldo, A.R.3; Carvalho, G.G.P.2; Oliveira, G.J.C.3; Lima, F.H.S.4 e Oliveira, P.A.3

1Universidade Estadual do Sudoeste da Bahía (UESB). Itapetinga, BA. Ipiaú-BA. Brasil. braulio@zootecnista.com.br
2Universidade Federal da Bahía (UFBA). Salvador, BA. Brasil
3Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Cruz das Almas, BA. Brasil
4Universidade Federal da Paraiba. UFPB/UFRPE/UFC. Areia, PB. Brasil

 

 


RESUMO

Com o objetivo de avaliar o potencial de tortas oriundas da produção de biodiesel (dendê, amendoim e girassol) em substituição ao farelo de soja, avaliou-se o comportamento ingestivo e parâmetros fisiológicos de novilhos Holandês x Zebu submetidos a dietas contendo estes subprodutos. Foram utilizados quatro novilhos Holandês x Zebu, fistulados no rúmen, mantidos em baias individuais e dispostos em um quadrado latino 4 x 4 repetido no tempo. O experimento teve duração de 88 dias e os animais foram alimentados com feno de Tifton-85 e mistura concentrada com farelo de soja, tortas de dendê, amendoim e girassol, que constituíram os quatro tratamentos. O comportamento ingestivo foi avaliado por observação e registro dos tempos diários despendidos com alimentação, ruminação e ócio. O comportamento bioclimatológico dos animais foi avaliado por intermédio das seguintes medições: frequência respiratória (FR), frequência cardíaca (FC) e temperatura retal (TR). Não houve diferença entre as dietas para o tempo despendido tanto na ingestão, como na ruminação (p>0,05), entretanto, os animais que consumiram a dieta com torta de dendê despenderam mais tempo em ócio (p<0,05). Nos parâmetros fisológicos, ocorreu diferença apenas para frequência cardíaca (FC), sendo a dieta sem torta adicional a que proporcionou o maior valor. A substituição do farelo de soja pela torta de dendê oriunda da produção do biodiesel na dieta de novilhos afetou o comportamento ingestivo dos animais.

Palavras chave: Frequência cardíaca. Frequência respiratória. Temperatura retal.


SUMMARY

Aiming to evaluate the potential of by-products coming from the production of biodiesel (palm oil, peanuts and sunflower cakes) replacing soybean meal, were evaluated the feeding behavior and bioclimatology of Holstein-Zebu steers fed diets with this byproducts. Were used four rumen canulated Holstein-Zebu steers, kept in individual pens and distributed in a 4 x 4 Latin square with repeated measures on the time. The experiment lasted 88 days and the animals were fed Tifton-85 hay and concentrate ration with soybean meal or one of the following cake: palm kernel, peanuts or sunflower, which constituted the four treatments. Ingestive behavior was assessed by observation and recording of daily time spent on eating, ruminating and idle. The bioclimatological behavior of the animals was evaluated through the following measurements: respiratory frequency (RF), heart frequency (FH) and rectal temperature (RT). The time spent for ingestion and rumination did not differ (p>0.05) between diets, however, animals fed the diet with palm kernel meal, spent more time in idle (p<0.05). There was difference for the physiological parameters only for heart rate (HR), and the diet without additional cake that provided the greatest value. The substitution of soybean meal with palm kernel meal coming from the production of biodiesel in the diet of steers affected the ingestive animal behavior.

Key words: Heart frequency. Respiratory frequency. Rectal temperature.


 

Introdução

Com a introdução de óleo vegetal na cadeia de produção de biocombustível no Brasil, é esperado o aumento da demanda por plantas oleaginosas e da oferta de tortas vegetais (Abdalla et al., 2009). Neste contexto a Bahia ocupa uma posição na vanguarda nacional, pois poderá suprir mais de 50% da demanda nacional do combustível. Quatro protocolos já foram assinados no Estado, com investimentos de cerca de R$ 250 (142 US$) milhões (BAHIABIO, 2008). As plantas vão produzir mais de 300 milhões de litros por ano, volume que deve chegar a 640 milhões, com a implantação dos outros quatro empreendimentos e a expectativa é que mais de 83 mil famílias sejam beneficiadas no Estado. Além disto, o Estado da Bahia tem incentivado a produção de biodiesel como forma de pro-mover o desenvolvimento local e regional, conforme a vocação e condições de produção das diferentes regiões do Estado (BAHIABIO, 2008).

O impacto social deverá ser grande e a geração de empregos será de extrema importância para os municípios, os agricultores e suas famílias. Contudo, ao se pensar em toda a cadeia produtiva, a torta produzida após a extração do óleo não pode ser vista como resíduo desta atividade, mas sim como um co-produto, ao qual deve ser agregado valor econômico para auxiliar a viabilização das indústrias de biodiesel e evitar lançamento desordenado desse resíduo no meio ambiente.

Assim, o uso das tortas de dendê, amendoim e girassol oriundas da produção de biodiesel na alimentação animal deve receber atenção, visto que algumas dessas tortas apresentam significativas concentrações de proteína, que é um nutriente de alto custo unitário e de muita importância para a manutenção e o desempenho produtivo dos bovinos, tais tortas também possuem um alto teor de extrato etéreo, que ao substituírem alimentos tradicionais como o farelo de soja, pode interferir no comportamento ingestivo e nos comportamento bioclimatológico dos ruminantes que as consumirem.

O estudo do comportamento ingestivo dos bovinos é uma ferramenta de grande importância para o desenvolvimento de modelos que sirvam de suporte a pesquisa e possibilitem ajustar técnicas de alimentação e manejo para melhorar o desempenho zootécnico dos animais. A probabilidade de o alimento ser ingerido pelo animal depende da ação de fatores que interagem em diferentes situações de alimentação, comportamento animal e meio ambiente (Pereira et al., 2009). As respostas comportamentais poderão ser utilizadas como ferramentas para a avaliação de dietas, possibilitando ajustar o manejo alimentar dos animais para a obtenção de melhor desempenho (Mendonça et al., 2004).

Alimentos alternativos devem ser avaliados quanto aos efeitos adversos ou positivos que eventualmente podem pro-mover sobre os animais que os consomem, principalmente em regiões tropicais. Segundo Nardone (2001), alterações na homeostase dos animais têm sido quantificadas mediante mensuração de variáveis fisiológicas tais como, temperatura retal, frequência respiratória e frequência cardíaca.

Diante do exposto, objetivou-se com este estudo avaliar as tortas (de dendê, amendoim e girassol) oriundas da produção de biodiesel em substituição ao farelo de soja, por intermédio do comportamento ingestivo e bioclimatológico de novilhos Holandês x Zebu.

 

Material e métodos

O experimento foi conduzido na Fazenda Experimental da Universidade Federal da Bahia, localizada no município de São Gonçalo dos Campos-BA, no período de fevereiro a abril de 2009. O local está situado na região do Recôncavo Baiano, caracterizado por médias anuais de 26oC de temperatura, 85% de umidade relativa, e precipitação anual aproximada de 1200 mm.

Foram utilizados quatro bovinos mestiços, Holandês x Zebu, castrados, com peso vivo médio inicial de 530 kg, fistulados no rúmen, segundo técnicas descritas por Leão e Coelho da Silva (1980). Os animais foram alojados, individualmente, em baias de 3,0 x 6,0 m, providas de comedouros, saleiros e bebedouros. O delineamento experimental utilizado foi em quadrado latino 4 x 4, repetido no tempo.

Foram oito períodos experimentais com onze dias de duração cada, sendo os sete primeiros dias para adaptação dos animais às dietas e os quatro últimos dias para coletas de amostras de alimentos fornecidos e sobras, determinação do consumo, coleta dos dados climatológicos e um dia para observação do comportamento ingestivo.

Os animais foram alimentados duas vezes ao dia, às 8:00 e 16:00 horas, permitindo-se sobras entre 10 e 20%. Amostras dos alimentos fornecidos e das sobras destes foram coletadas do 8o ao 11o dia do período experimental, acondicionadas em sacos plásticos, previamente etiquetados, e armazenadas em freezer a -20oC para posteriores análises.

Amostras dos alimentos e das sobras foram submetidas à pré-secagem a 55oC, durante 72 horas, moídas em moinho de faca tipo Willey com peneira de 1 mm e armazenadas em recipientes de plástico, devidamente lacrados, para análises laboratoriais. Nas amostras pré-secas dos ingredientes utilizados, foram determinados os teores de matéria seca (MS), matéria mineral (MM), proteína bruta (PB), extrato etéreo (EE), nitrogênio insolúvel em detergente neutro (NIDN) e nitrogênio insolúvel em detergente ácido (NIDA) de acordo com os procedimentos da AOAC (1990), ao passo que as determinações de fibra em detergente neutro (FDN), fibra em detergente ácido (FDA), hemicelulose, celulose e lignina, procederam de acordo metodologia descrita por Van Soest et al. (1991) (tabela I). E os teores de nutrientes digestíveis totais (NDT) foram estimados pela equação proposta por Thiago e Silva (2001):

 

 

As dietas foram formuladas para serem isonitrogenadas (11% de PB) e isoenergéticas (63% de NDT), com relação volumoso: concentrado (65:35) na forma de dieta total misturada, conforme recomendações do NRC (2001) para mantença (tabela II e III).

 

 

 

O consumo diário foi mensurado por diferença entre o alimento fornecido e as sobras, por animal, em cada período de coleta.

No 8o dia de cada período experimental, os animais foram observados para avaliação do comportamento ingestivo, com registro dos tempos diários despendidos com alimentação, ruminação e ócio. As observações destas atividades foram tomadas a cada cinco minutos, durante 24 horas consecutivas. Foi utilizada iluminação artificial durante a avaliação do comportamento ingestivo, sendo que os animais eram adaptados a iluminação artificial nos quatro dias anteriores ao comportamento.

As eficiências de ingestão (EI) e de ruminação (ERU) da MS, da FDN e o tempo de mastigação total (TMT min/dia), foram calculados conforme a metodologia descrita por Burger et al. (2000), por intermédio das seguintes equações:

TI= tempo gasto em ingestão diariamente;
EIMS= CMS/TI;
EIFDN= CFDN/TI;
EIMS= eficiência de ingestão de MS (g MS ingerida/h);
CMS (g)= consumo diário de matéria seca;
CFDN (g)= consumo diário de FDN;
ERUMS= CMS/TRU;
ERUFDN= CFDN/TRU;
ERUMS= eficiência de ruminação da MS (g MS ruminada/h);
TRU= tempo gasto em ruminação diariamente (h);
ERUFDN= eficiência de ruminação da FDN (g FDN ruminada/h);
TRU= tempo gasto em ruminação diariamente (h);
TMT= TI + TRU;
TMT= tempo de mastigação total (min/dia).

Os parâmetros fisiológicos dos animais foram avaliados por intermédio das seguintes medições: frequência respiratória (FR), frequência cardíaca (FC) e temperatura retal (TR), realizadas as 8 e às 16 horas no 10o dia de cada período experimental. Foi tomada a frequência respiratória pelos movimentos dos flancos por minuto, a frequência cardíaca obtida com um estetoscópio colocado diretamente na região torácica esquerda, contando-se o número de movimentos, ambos os parâmetros foram aferidos com o auxilio de um cronômetro por período de 30 segundos e o resultado multiplicado por dois para obtenção em minutos. A temperatura retal foi aferida por meio de termômetro clínico digital.

Para o monitoramento do ambiente experimental, foram instalados termohigrômetro e termômetro de globo negro para medir e registrar a temperatura ambiente (Ta), umidade relativa do ar (URA), temperatura de globo negro (TGN) e temperatura do ponto de orvalho (Tpo) e determinar o índice de temperatura do globo negro e umidade, segundo recomendações de Buffington et al. (1981):

O índice de temperatura e umidade foi calculado segundo metodologia proposta por Baêta e Souza, 1997:

O ponto de orvalho foi calculado pela fórmula:

As leituras das variáveis ambientais foram realizadas das 6 às 18 horas nos dias 8o, 9o e 10o de cada período experimental.

As variáveis relacionadas com os tratamentos foram submetidas à análise de variância e as comparações entre os períodos e tratamentos foram feitas pelo teste de Tukey, por meio do Statistical Analysis System (SAS, 1990), ao nível de 5% de significância.

 

Resultados e discussão

Foi observado que a dieta com torta de dendê proporcionou o menor consumo de matéria seca (p<0,05) em relação às demais dietas, como pode ser observado na tabela IV. Este menor consumo está relacionado ao alto teor de FDN da dieta com torta de dendê (tabela III), em relação às outras dietas experimentais. Isto ocorre devido às altas concentrações de FDN no rúmen-retículo o que diminui o trânsito no trato gastrointestinal provocando o efeito físico de enchimento, o que limita o consumo de matéria seca. Segundo Mertens (1994), rações formuladas com elevado teor de fibra, ou baixa densidade energética em relação às exigências, o consumo será limitado pelo efeito de enchimento do rúmen-retículo. Se a densidade energética for elevada, ou a concentração de fibra for baixa em relação às exigências, a ingestão passa ser limitada pela demanda fisiológica de energia. A correlação existente entre ingestão de FDN, ruminação e salivação é indispensável para manter a atividade ruminal e o consumo de alimentos.

 

 

Para o consumo de fibra em detergente neutro não houve diferença (p>0,05) entre as dietas, o que demonstra que o consumo neste experimento foi regulado pelo efeito físico da fibra, pois a proporção de volumoso utilizado nas dietas fez com que os animais tivessem uma alta ingestão de fibra. Tal fato pode ser constatado quando se observa que, mesmo proporcionando menor consumo de matéria seca, os animais que ingeriram a dieta com torta de dendê consumiram a mesma quantidade de FDN que aqueles submetidos às outras dietas.

Para variáveis, EIMS, EIFDN, ERMS e ERFDN, não houve efeito (p>0,05) das dietas sobre as mesmas. De acordo com Carvalho (2008), as eficiências de ingestão e de ruminação são afetadas primariamente pelo consumo animal, que por sua vez provoca implicações nos tempos despendidos nas atividades de ingestão, ruminação e ócio. No presente estudo, a similaridade nas eficiências de ingestão e ruminação é, possivelmente, em decorrência da proximidade dos tempos despendidos nestas atividades serem semelhantes.

Com relação ao tempo de mastigação total (TMT) o menor tempo (p<0,05) foi observado quando os animais ingeriram a dieta com torta de dendê em relação as dietas com tortas de amendoim e girassol, devido esta dieta apresentar o menor con-sumo de matéria seca, sendo que o menor consumo implica em menores tempos de ingestão e ruminação, o que diminui o TMT pois este é calculado através do somatório destes tempos.

Observa-se que apenas os tempos despendidos para o ócio (tabela V) diferiu (p<0,05) entre as dietas, sendo o maior valor observado nos animais alimentados com a dieta com torta de dendê em comparação as dietas com tortas de amendoim e girassol. Isso ocorreu em função do menor consumo de matéria seca observado nos animais que foram alimentados com esta dieta, como é evidenciado na tabela IV.

 

 

Os tempos encontrados para as atividades de ingestão, ruminação e ócio estão dentro do padrão do comportamento alimentar dos ruminantes mantidos em confinamento. Os resultados encontrados foram semelhantes aos de diversos autores que trabalharam com bovinos em regime de confinamento (Costa et al., 2003; Salla et al., 2003; Mendonça et al., 2004; Oliveira et al., 2007), estes autores encontraram tempos de 276 ± 55,8 minutos/dia; 482,4 ± 43,8 minutos/dia e 606 ± 126 minutos/dia, para as atividades de ingestão, ruminação e ócio, respectivamente.

O tempo médio de ingestão (319,37min/ dia) obtido no presente estudo, foi superior ao encontrado por Rabello et al. (2002), ao trabalharem com novilhas Nelore, alimentadas com dietas com predominância de bagaço de cana tratado sob pressão e vapor, obtiveram tempo de ingestão de 176,20 min\dia, superior também ao observado por Marques (2004), ao trabalhar com búfalas recebendo silagem de cana-de-açúcar e concentrado, de 240 min/dia. E ainda Marques et al. (2005), ao avaliar comportamento de touros jovens mestiços em confinamento, com peso médio inicial de 329 kg, alimentados com silagem de sorgo e um concentrado contendo milho, farelo de soja, uréia e mistura mineral, obtiveram valor médio de alimentação de 101,40 minutos. Este valor superior ao da literatura é em função das características físicas e químicas das dietas, segundo Fraser e Broom (1999) e pelo consumo em relação ao peso vivo, já que os animais utilizados neste experimento tinham peso inicial maior do que os citados acima, sendo de 530 kg.

Neste estudo, o tempo médio despendido para ruminação foi semelhante ao encontrado por Miranda et al. (1999), que ao trabalharem com novilhas mestiças (½ Holandês x ½ Zebu) alimentadas com dietas a base de cana-de-açúcar e uréia, obtiveram tempo de ruminação de 580,00 min/dia, e superior aos dados de Rabello et al. (2002) com novilhas Nelore em confinamento, alimentadas com bagaço de cana de açúcar tratado a pressão e vapor, que obtiveram tempo médio de 318,7 min/dia. Foi também, superior ao obtido por Marques (2004), que trabalhou com búfalas, alimentadas com silagem de cana-de-açúcar e concentrado, na proporção de 55:45, que obteve tempo de ruminação de 237,51 min/dia, e ao encontrado por Marques et al. (2005), ao avaliar comportamento de touros jovens mestiços em confinamento, com peso médio inicial de 329 kg, alimentados com silagem de sorgo e o concentrado contendo milho, farelo de soja, uréia e mistura mineral, com 1,00% MS do peso vivo de concentrado, que obtiveram valor médio de alimentação de 112,80 min/ dia. Estes valores superiores ao da literatura são em função das características físicas e químicas das dietas. Segundo Van Soest (1994) relata que, o tempo de ruminação é influenciado pela natureza da dieta e parece ser proporcional ao teor de parede celular dos volumosos ou da dieta.

A partir dos dados climáticos coletados durante o período experimental, nos períodos da manhã e tarde, foram obtidos os valores médios da manhã e da tarde e a média geral das seguintes variáveis: temperatura do ar, umidade relativa do ar, do índice de temperatura do globo negro e umidade e índice de temperatura e umidade, estas tabuladas na tabela VI. O clima é um dos fatores que mais interfere na produção animal. As oscilações climáticas interferem diretamente nos parâmetros fisiológicos. A alta temperatura, associada à umidade relativa do ar elevada, afeta a temperatura retal e a frequência respiratória, podendo causar estresse (Baêta e Souza, 1997) e são elementos climáticos geralmente associados à baixa produtividade dos animais criados nas regiões tropicais (McDowell, 1975).

 

 

O índice de temperatura e umidade (71,0) demonstra que os animais não estavam numa condição de conforto, segundo a classificação de Rosenberg et al. (1983). Nesta classificação índices de temperatura e umidade entre 68,00 e 74,00 podem causar perdas produtivas aos animais, entre 75,00 e 78,00 o produtor deve ficar em alerta, pois pode haver morte de animais, entre 79,00 e 84,00 é sinal de alerta principalmente para rebanhos confinados e se ultrapassar 85,00 é sinal de morte se não forem tomadas providencias emergências.

Observa-se que não houve efeito das dietas (p>0,05) sobre a temperatura retal e a frequência respiratória dos animais. Entre-tanto, aqueles que consumiram a dieta sem torta adicional, tiveram uma frequência cardíaca mais alta (p<0,05), conforme os dados expostos na tabela VII. A frequência cardíaca mais alta para a dieta com farelo de soja, pode estar relacionado aos teores de extrato etéreo mais baixo do farelo de soja em relação aos das tortas, pois o extrato etéreo não é fermentável no rúmen com isso não produz calor, já a soja é mais fermentável. A temperatura ambiental associada com a produção de calor pelo animal pode alterar o tônus vagal intensificando as atividades dos centros cardioacelerador e vasoconstritor, elevando, portanto a frequência cardíaca. De acordo com Guyton e Hall (2002) esse efeito ocorre, presumivelmente, porque o calor excessivo aumenta a permeabilidade iônica da membrana celular, resultando em aceleração do processo de auto-excitação.

 

 

Sobre temperatura retal, Baccari Júnior (1986) relatou que a temperatura retal normal considerada para bovinos é de 38,5oC, com alguma variação de acordo com a raça, idade, estágio de lactação, nível nutricional e estágio reprodutivo. Segundo Kolb et al. (1987), a temperatura retal média para bovinos acima de um ano é de 38,5 ± 1,5oC. Esta temperatura é mantida mediante regulação cuidadosa do equilíbrio entre a produção de calor e sua liberação do organismo.

A frequência respiratória depende, principalmente, do período do dia, da temperatura ambiente e do nível de produção animal. Segundo Kelly e Bond (1971), os valores normais de frequência para bovinos leiteiros adultos da raça holandesa situamse entre 10 e 40 mov/min. Entretanto, Segundo Hahn e Mades (1997), a frequência de 60 mov/min indica animais com ausência de estresse térmico ou que este é mínimo, mas, quando ultrapassam 120 mov/min, refletem carga excessiva de calor e, acima de 160 mov./min, medidas de emergência devem ser tomadas, como por exemplo molhar os animais.

A frequência cardíaca observada de 65 batimentos por minuto está de acordo com os valores de referência para bovinos encontrados por Detweiler (1996), que variam entre 48 a 80 bat/min.

Por meio das médias da temperatura retal de 38,76oC, da frequência respiratória de 45,45 movimentos por minuto e a frequência cardíaca de 65 batimentos por minuto, observadas no presente trabalho, pode-se inferir que os novilhos se mantiveram dentro da faixa de normalidade para bovinos, de acordo com a literatura citada. Isto demonstra que a substituição do farelo de soja não afetou negativamente as respostas fisiológicas. O contrario ocorreu para a frequência cardíaca, ao ser diminuída com a inserção das tortas na dieta, denota efeito positivo ao bem-estar dos animais.

 

Conclusões

As tortas de amendoim e girassol oriundas da produção de biodiesel podem substituir ao farelo de soja na dieta de novilhos, pois não prejudicam o seu comportamento ingestivo e parâmetros fisiológicos. Entre-tanto, a torta de dendê, ao substituir o farelo de soja, afeta negativamente o comportamento ingestivo de novilhos com o decréscimo do consumo de matéria seca.

 

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Recibido: 30-8-10
Aceptado: 22-9-11