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Enfermería Global

On-line version ISSN 1695-6141

Enferm. glob. vol.17 n.49 Murcia Jan. 2018  Epub Jan 01, 2018

http://dx.doi.org/10.6018/eglobal.17.1.289281 

Revisiones

Representações sociais elaborada pela mídia sobre diabetes infantil

Antonio Dean Barbosa Marques1  , Célia Maria de Freitas2  , Dafne Paiva Rodrigues2  , Maria Lúcia Duarte Pereira2  , Thereza Maria Magalhães Moreira2 

1Doctorando del Programa de Posgraduación Cuidados Clínicos en Enfermería y Saúde da Universidade Estadual do Ceará. Bolsista Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Fortaleza, Ceará, Brasil.

2Doutora em Enfermagem. Professora Adjunta da Universidade Estadual do Ceará. Fortaleza, Ceará, Brasil.

RESUMO:

Objetivo

Apreender as representações sociais produzidas pela mídia sobre o diabetes infantil.

Método

Estudo de representações sociais com base documental. A busca por matérias foi realizada em dois jornais cearenses: Jornal Diário do Nordeste e Jornal O Povo, e em duas revistas impressas: Veja e IstoÉ.

Resultados

Foram identificadas 19 matérias jornalísticas. O conteúdo textual decorrente das reportagens jornalísticas foi processado e analisado por meio do software IRAMUTEQ. A Classificação Hierárquica Descentemente (CHD) dividiu o conjunto de conteúdos das matérias jornalísticas em seis classes, nomeados conforme seu conteúdo.

Conclusão

A mídia faz uso de diferentes abordagens ao representarem o mesmo fenômeno social, repercutindo no modo de produção e/ou modificação de como a sociedade confronta os fenômenos do cotidiano e a forma como os interpreta.

Palavras-chave: Psicologia social; Meios de comunicação; Diabetes mellitus; Saúde da criança

INTRODUÇÃO

O Diabetes constitui uma das maiores emergências de saúde global do século XXI. A cada ano mais pessoas são diagnosticas, requisitando uma mudança do estilo de vida e prevenção de complicações. Mundialmente, mais de 415 milhões de adultos convivem com a doença na atualidade e em 2040 estimam-se que sejam 642 milhões. O Brasil ocupa a 4ª posição entre os países com maior prevalência de adultos com diabetes e o 5º em gastos em saúde junto aos 14,3 milhões de pessoas com a doença1.

Existem no mundo aproximadamente 86.000 crianças com menos de 15 anos de idade com diabetes tipo 1 (DM1). Estima-se que 70.000 novos casos sejam diagnosticados a cada ano, com aumento de 3% ao ano no número de casos. O Brasil está entre os 10 países com maior número de crianças com DM1, ocupando a 3ª posição no ranking. A maioria das crianças com DM1 necessita de uso contínuo de insulina ao longo da vida. Diabetes tipo 2 (DM2) também pode ocorrer em crianças, sendo os adolescentes os mais acometidos. Tipos mais raros também podem ocorrer, principalmente em recém-nascidos1)(2.

O viver com diabetes traz profundas mudanças no modo de vida de crianças e familiares, exigindo rede de apoio e cuidados específicos de profissionais de saúde e famílias, as quais devem ser incluídas o mais precocemente possível no tratamento para acompanhar e incentivar os filhos a manterem o cuidado3.

Ampliando o escopo sobre a percepção de qualquer tipo de doença, com o intuito de promover a circulação e apropriação de informação em saúde, destaca-se a intensa necessidade de estimular a discussão para com a comunidade e capacitá-la para que consiga se manifestar. Urge debater e conhecer qual o tipo de informação em saúde que a população está tendo acesso (política ou epidemiológica). Dessa forma, estudos de representações sociais na mídia corroboram com o campo da saúde, provendo ponto central norteado na qualidade e singularidade da informação disponibilizada nos jornais diários, fonte documental prestigiada pelas famílias brasileiras4.

A mídia desempenha papel importante na construção de representações sociais da popula ção5)(6, na formação do imaginário coletivo ao gerar imagens simbólicas e interceder na relação entre os leitores e a realidade. Os textos midiáticos tecem fios de construção de identidade, assimilando sentidos e representações presentes no dia a dia, influenciando profundamente muitos aspectos da vida cotidiana4)(5)(6)(7. Além disso, quando se estuda mídia no contexto das representações sociais, há intrínseca necessidade de reconhecer os processos comunicacionais, conjuntamente com a configuração dos conteúdos emitidos e recebidos8.

Moscovici9 elucida três sistemas de comunicação que norteiam as representações: difusão, propagação e propaganda. A difusão refere-se à diversificação do público, sendo a essência da notícia construída a partir da resposta do público. Toda e qualquer notícia tem o intuito de informar o leitor sem posicionamento determinante frente ao objeto. Já a propagação volta-se a grupos específicos com ideologias cristalizadas. As mensagens adequam os objetos, comportamentos, normas, a um pensamento social existente. No tocante à propaganda, as idealizações são estabelecidas e concebidas, admitindo posição frente ao objeto em questão.

Baseado nesse contexto, explorar a temática diabetes infantil à luz da Teoria das Representações Sociais (TRS), compreende conhecer a influência da mídia na formação e construção do modo de pensar e agir da população, e suas implicações nas políticas de controle e prevenção.

A alta prevalência, incidência e morbimortalidade do DM1 desperta atenção dos órgãos de saúde e da mídia local e nacional, por se constitui um fenômeno importante para ser investigado no aporte teórico das representações sociais, na verificação dos sentidos atribuídos. Sendo assim, torna-se relevante conhecer estas representações do ponto de vista de mídias locais e nacionais.

Face ao exposto, objetivou-se com esse estudo apreender as representações sociais produzidas pela mídia sobre o diabetes infantil.

MÉTODO

Trata-se de um estudo de representações sociais de base documental. Esta é constituída por técnicas e métodos próprios para a identificação, interpretação e análise de documentos impressos e/ou digitais10.

A busca por matérias foi realizada em dois jornais impressos de maior veiculação no estado Ceará, Jornal Diário do Nordeste e Jornal O Povo, e em duas revistas impressas, Veja e IstoÉ, de maior circulação nacional, ambos via on-line, durante o mês de julho de 2016.

Para a seleção utilizou-se o buscador “diabetes” sem delimitação temporal. Utilizou-se o checklist do PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses) para a condução da seleção das matérias jornalísticas. Inicialmente, 6.152 matérias foram identificadas, durante a triagem 5.645 foram excluídas, 507 foram eleitas, destas, 19 foram incluídas no estudo (Figura 1). Aplicaram-se dois filtros, a fim de selecionar as reportagens que atendiam satisfatoriamente à proposta do estudo: o filtro I consistia na leitura dos títulos das reportagens e o filtro II fundamentava-se na leitura na íntegra das matérias jornalísticas durante a fase de elegibilidade.

Figura 1 Fluxograma da seleção das matérias jornalísticas, baseado no modelo PRISMA - Fortaleza-Ceará-Brasil, 2016. 

Os resultados apreendidos compuseram o corpus que foi transcrito para o programa LibreOffice®, submetidos refinamento para exclusão de repetições vocabulares, agrupamento das palavras por aproximação semântica. As matérias inclusas foram organizadas em tabela, conforme código de identificação, título, ano de publicação da matéria e fonte.

O conteúdo textual decorrente das reportagens jornalísticas foi processado e analisado por meio do software IRAMUTEQ (Interface de R pour analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionneires) versão 0.7 alpha 2, que, sob enfoque quantitativo, fornece contextos e classes com conteúdos, a partir da semelhança de seus vocabulários11.

Dentre as possibilidades de análise pelo IRAMUTEQ, optou-se pela Classificação Hierárquica Descendente (CHD). Nessa modalidade, os segmentos textuais são classificados em função dos seus respectivos vocabulários e o conjunto deles é repartido em função de frequência das formas reduzidas. Esta análise visa obter classes de segmentos textuais, que, ao mesmo tempo, apresentam vocabulário semelhante entre si e vocabulário diferente dos segmentos de textos de outras classes. A partir dessas análises em matrizes, o software organiza a análise dos dados em um dendograma da CHD, que ilustra as relações entre classes.

RESULTADOS

A seguir são apresentados os resultados alusivos identificados nos jornais e revistas. Estes são dispostos em tabela segundo código de identificação, título da matéria jornalística, data de publicação e local de publicação (Tabela I).

Tabela I Caracterização das matérias jornalísticas inclusas no estudo com base no código, título, data de publicação e fonte, Fortaleza-Ceará, 2016. 

Código Título Data Fonte
13 Alunos recebem orientação sobre diabetes tipo 1 29/10/2014 O Povo
14 Evento reúne pais e filhos com diabetes 09/11/2013 O Povo
15 Qualidade ao tratamento da diabetes mellitus 29/07/2014 O Povo
16 Escolas serão conscientizadas sobre diabetes infantil 05/08/2014 O Povo
17 Programa para crianças com diabetes será trazido a duas escolas em Fortaleza 05/08/2014 O Povo
18 Prevenção começa com alimentação saudável na infância 11/05/2012 O Povo
19 Seminário sobre diabetes tipo 1 orienta pais de crianças portadoras 13/09/2011 O Povo
20 Games violentos são inofensivos para maioria das crianças, diz estudo 09/06/2010 O Povo
21 Internet e videogames deixam jovens vulneráveis ao diabetes, alerta médica 14/11/2010 O Povo
22 1 milhão de crianças têm diabetes no Brasil 12/11/2015 Diário do Nordeste
23 Obesidade tem ligação com o diabetes 13/11/2015 Diário do Nordeste
24 Como lidar com o diabetes nas escolas 27/12/2015 Diário do Nordeste
25 A Diabetes tipo 2 ameaça as crianças 09/10/2015 IstoÉ
26 Implantado 1º pâncreas artificial em menino de 4 anos para tratar diabetes 22/01/2015 IstoÉ
27 Obesidade e diabetes dobram o risco de ter um filho autista 02/02/2016 Veja
28 Stress na infância triplica risco de diabetes tipo 1, diz estudo 09/04/2015 Veja
29 Nascimento prematuro pode elevar risco de diabetes tipo 2 11/02/2014 Veja
30 Crianças também são vítimas do diabetes tipo 2 14/11/2011 Veja
31 Alimentação contra o diabete infantil 02/05/2011 Veja

Fonte: Dados obtidos no Jornal O Povo, Diário do Nordeste e Revistas Isto É e Veja, 2016.

Das 19 matérias selecionadas, 12 (63,1%) foram publicadas em jornais12)(13(14)(15)(16)(17)(18)(19)(20)(21)(22)(23, sendo nove (47,3%) no Jornal O Povo12)(13(14)(15)(16)(17)(18)(19)(20 e três (15,7%) no Jornal Diário do Nordeste21)(22)(23. As demais matérias (36,8%) foram publicas em revistas24)(25)(26)(27)(28)(29)(30, duas (10,5%) na Revista IstoÉ24)(25 e cinco (26,3%) na Revista Veja26)(27)(28)(29)(30.

Quanto ao ano de publicação, identificaram-se matérias publicadas de 2010 a 2016, sendo maioria (57,8%) publicada nos dois (2014-2015) últimos anos anteriores à realização da pesquisa.

As publicações dos jornais tiveram como foco divulgação de eventos locais e orientações para o convívio diário com o diabetes na infância12)(13(14)(15)(16)(17)(18)(19)(20)(21)(22)(23, enquanto as revistas centraram-se nas descobertas científicas24)(25)(26)(27)(28)(29)(30. A ênfase de notícias justifica-se pelo público-alvo. Em geral, os jornais são destinados à população em geral, enquanto o leitor-alvo de revistas são pessoas de classe média alta, políticos e empresários.

O IRAMUTEQ identificou a divisão do corpus em 202 unidades de texto iniciais (UCE’s), 231 segmentos de textos, com aproveitamento de 87,45% dele. Por meio da CHD, o software apresentou o dendograma das classes obtidas a partir do corpus. A CHD dividiu o conjunto de conteúdos das matérias jornalísticas em seis classes, formadas a partir da proximidade lexical e semântica das matérias. Cada classe foi nomeada conforme seu conteúdo específico. Para a construção do dendograma (Figura 2), que ilustra as partições feitas no corpus, até que chegasse às classes finais.

Figura 2 Estrutura temática das representações sociais do diabetes infantil pela mídia. Fortaleza-Ceará-Brasil, 2016. 

Classe 1: Estudos sobre o risco de desenvolvimento do diabetes

Essa classe apresentou 45 UCEs, correspondendo a 22.3% do corpus e está associada diretamente à classe 6. Os vocábulos mais frequentes e significativos destes segmentos de textos são: estudo, risco, publicar e condição (p < 0,0001), extraídas predominantemente três artigos 26)(27 por ordem de significância.

Classe 2: A escola como espaço de promoção da saúde

Essa classe apresentou 35 UCEs, correspondendo a 17.3% do corpus e está associada diretamente à classe 3, sendo os vocábulos: escola, público, aluno, projeto, participar, São Paulo, programa, treinamento, privado, estudante, Ceará, professor e kids os mais frequentes e significativos destes segmentos de textos (p < 0,0001), extraídas predominantemente de quatro artigos 12)(15)(16)(23 por ordem de significância.

Classe 3: Entidades de classe realizam encontros para informar os pais sobre o diabetes

A classe 3 apresentou 25 UCEs, com 12.4% do corpus, estando associada diretamente à classe 2. Os vocábulos mais frequentes e com maior nível de significância (p < 0,0001) foram: encontro, diabético, pai, Ministério da Saúde, informar, filho hoje, ficar, mãe, realizar, grande, existir, dificuldade e quando, originados a partir de duas matérias 13)(15.

Classe 4: Mudança de hábitos alimentares para o convívio com o diabetes infantil

A classe 4 apresentou 30 UCEs com 14.8% do corpus, filiado à classe 5. Nutricionista, alimentar, significar, causa, peso, fruta, conviver, perda, hábito, açúcar e alimentação foram os vocábulos mais frequentes e com maior nível de significância (p < 0,0001), formados por duas matérias 17)(20.

Classe 5: Uso de insulina para controlar os níveis glicêmicos

Essa classe apresentou 30 UCEs, correspondendo a 14.8% do corpus estando associada diretamente à classe 4. Os vocábulos mais frequentes e significativos destes segmentos de textos foram: insulina, glicose, sangue, pâncreas, célula, nível, taxa, hormônio, favorecer, produzir, açúcar, transformar, energia, resistência e causar (p<0,0001), extraídas predominantemente de três artigos 18)(25)(28, por ordem de significância.

Classe 6: Maior incidência de adolescentes com diabetes no mundo e no Brasil

A classe 6 apresentou 37 UCEs, correspondendo a 18.3% do corpus e estando associada diretamente à classe 1. Os vocábulos mais frequentes e significativos destes segmentos de textos foram: adolescente, incidência, adulto, manifestar, acometer, mundo, país, Brasil e caso (p < 0,0001), extraídas predominantemente de três artigos 20)(24)(29, por ordem de significância.

DISCUSSÃO

Pesquisadores estadunidenses afirmam que crianças cujas mães eram obesas antes do início da gestação ou que já conviviam com diabetes antes da gestação ou desenvolveram diabetes gestacional tinham duas vezes mais chance de ter filho com autismo26.

Em outro estudo também realizado nos Estados Unidos da América (EUA) apontou que nascimentos prematuros podem elevar o risco de desenvolvimento de DM2 em decorrência de recém-nascidos prematuros apresentarem o dobro do nível de insulina, quando comparado com recém-nascidos dentro do período adequado28.

Reportagem jornalística realizada na Suécia27 inicia com a seguinte afirmação “divórcios, brigas e stress familiar podem ser gatilhos para a doença”, trazendo uma imagem de uma menina cabisbaixa com os pais desfocados discutindo no fundo. Operando em uma lógica representacional, logo na mensagem introdutória e o uso da imagem traz forte destaque e apelo ao fenômeno social da questão familiar para a gênese da doença, e, ao prosseguir a leitura, o estudo conclui que crianças que sofreram “evento traumático” tiveram três vezes mais risco de desenvolver do que crianças que não vivenciaram situações estressantes. A matéria ainda apresenta o seguinte trecho “O stress psicológico deveria ser tratado como um risco em potencial (para a doença)”. Aqui, essa representação começa a ser modificada no momento em que emergem representações correlacionadas a fatores estressores, e não somente na questão familiar, conforme o texto traz inicialmente, no intuito de influenciar o leitor.

A compreensão das relações sociais é de fundamental importância para atender a complexidade da demanda em gerenciamento do diabetes infantil. O contexto social dessa gestão, inclui familiares (pais, cônjuges), colegas, parceiros amorosos e de cuidados por profissionais de saúde. Identificam-se duas correntes teóricas ligadas a essas questões; a Teoria interpessoal e Teoria da Autodeterminação, em que as interações cordiais e amigáveis com a família e os amigos estão relacionadas a bons resultados de diabetes, enquanto as interações conflituosas estão relacionadas a resultados ruins.

O espaço escolar é propício para que crianças e adolescentes com diabetes sofram bullying por parte de colegas, sendo muitas vezes excluídos de brincadeiras ou impedidos de realizar matrícula por falta de conhecimento sobre a doença12)(15)(16)(23. Com propósito de levar a conscientização ao ambiente escolar, a IDF criou o Kids and Diabetes in School (Crianças com Diabetes na Escola). No Brasil apenas dois estados foram contemplados: São Paulo e Fortaleza15)(16. Foram treinados professores e crianças para reconhecer precocemente os sinais e sintomas da doença, entregue materiais lúdicos e educativos, realizadas palestras, debates, dentre outras ações15.

O desconhecimento gera estigma sobre a criança com diabetes, acarretando muitas vezes em isolamento e restrição de atividades. São comuns comentários como “Diabetes pega? Mas ele fica furando o dedo, parece um viciado! ” (15.

Com o propósito de aclarar e dirimir as dúvidas e preconceito com crianças e adolescentes com diabetes, o programa Kids faz uso de atividades lúdicas por meio da contação de história narrando a vida de Tomás, que é uma criança que brinca, estuda e pratica esporte. O que o difere das demais crianças é que ele tem diabetes e precisa tomar insulina. A contação da história promove um dos dois processos que geram representações sociais, a objetivação. (Moscovici, 2012)9 escreve que a objetivação soma-se ao pensamento de não familiaridade com a de realidade, tornando-se legítima a essência da realidade. Portanto, objetivar implica a concretização e a naturalização de uma representação social. Uma vez que a coletividade aceite tal paradigma ou núcleo figurativo torna-se cada vez mais fácil falar e compreender tudo aquilo que se relacione ao paradigma.

Grande parte do tempo da criança e desprendido no ambiente escolar, tal fato, exige estabelecimento de comunicação estreita com cooperação entre a escola para boa gestão do diabetes, segurança e oportunidades acadêmicas.

Quando a criança tem diabetes, toda a família adoece e sofre junto, e surge a necessidade de modificar todo o cotidiano. Muitos pais e mães de crianças com DM1 são carentes de informação e não sabem como devem agir diante de tal fato13.

Nesse contexto, conhecer o modo como são geradas as representações sociais de pais de crianças com diabetes permite identificar, recriar e refinar o conhecimento científico, difundido pelos meios de comunicação e informações transmitidas por profissionais de saúde, associando-os com senso comum, o que é denominado de ancoragem9. Modifica-se, assim, a realidade dos mecanismos de ancoragem e objetivação, no momento em que um novo conhecimento é compreendido e partilhado socialmente em grupo, tornando-o familiar. Assim, deixa-se a realidade de ser do universo reificado passando a ser do universo consensual.

São muitas as crenças e valores socioculturais que permeiam a alimentação e o comportamento alimentar de pessoas com diabetes. “Comer muito doce não significa que você vai ter diabetes”17. Atualmente, devido ao estilo de vida da sociedade, é cada vez mais comum o consumo exacerbado de produtos industrializados e ricos em açúcares (doces, biscoitos recheados, chocolates, refrigerantes, hambúrgueres, pizzas, salgadinhos,...)30.

Para (Moscovici, 2012)9, o sujeito e o objeto não são congenitamente distintos, há um movimento constante entre o sujeito e o objeto, promovendo uma interação na qual ambos se modificam mutuamente. Nessa acepção entende-se que o comportamento alimentar de crianças (sujeito) com diabetes (objeto) sofre modificação pela necessidade de adaptação à nova circunstância de vida, acarretando novas representações.

A notícia do primeiro implante de pâncreas artificial em uma criança realizado na Austrália gerou forte discussão e grande expectativa nas redes sociais e comunidade científica no ano de 2015. “O pâncreas artificial implantado, parecido com um reprodutor MP3 (aparência física) [...] reproduz a função biológica do pâncreas para prever os níveis baixos de glicose e deter a administração de insulina”15. Para melhor compreensão do novo recurso tecnológico em saúde, ancora-se na representação física de um aparelho MP3, recurso multimídia popular. Ancorar é “classificar e dar nome a alguma coisa. Coisas que não possuem nome e são estranhas, não existentes e até ameaçadoras”((9):61). Colocar o objeto ou pessoa desconhecida ou estranha em uma determinada categoria (rotular), atribuindo um nome conhecido é o primeiro passo do processo de representação social.

O diabetes mellitus tipo 1 é uma doença crônica que exige tratamento por toda a vida. Este tratamento requer injeções diárias de insulina, mudança no estilo de vida, adoção de hábitos saudáveis e restrições alimentares que podem dificultar a adesão ao tratamento. Este é frequentemente diagnosticado antes que as crianças desenvolvam habilidades necessárias para completar as complexas tarefas de gestão diabetes de forma independente, tornando-se crítico que os pais e outros adultos estão envolvidos na sua gestão. Os pais devem rapidamente dominar e ensinar os outros sobre os cuidados com DM1 de seu filho, e constantemente trabalhar para ajudar a criança a atingir apertado de glicose no sangue controle e evitar a hipoglicemia.

As reportagens alertam sobre o aumento de casos de DM2 em crianças e adolescentes20)(24)(29, em decorrência da mudança nos hábitos alimentares, com a incorporação dos lanches rápidos e calóricos ao dia a dia, e também do estilo de vida sedentário relacionado com avanços tecnológicos (internet, videogames,...)20. Antes quase restrita a adultos, hodiernamente o DM2 avança entre os jovens, sobretudo associado à obesidade infantil24. Há 50 anos somente 3% de todos os casos de DM2 ocorriam em crianças e adolescentes, na atualidade este percentual é de 30%29.

As enunciações jornalísticas traduzem o diabetes como ameaça infanto-juvenil por explicações reducionistas da visão biomédica, com ênfase nos aspectos clínicos e epidemiológicos difundidos no meio científico e discutidos por expertises em saúde. Configura-se, então, que tais elementos informativos são provenientes do universo reificado. Moscovici vai nos dizer que as ciências geram representações a contar que “mundos reificados aumentam com a proliferação das ciências”((9):60). Ou seja, a popularização da ciência, promove maior aceitação e incorporação dos princípios científicos no modo de viver humano.

A representação do diabetes infantil encontra-se ancorado no valor social que é atribuído. Assim, ao passo que os pais de crianças com DM e/ou as próprias crianças tem acesso às informações disponibilizadas pela mídia, constroem conhecimento sobre a concepção do que é a doença e o tratamento para o processo de cuidar.

CONCLUSÃO

Enquanto os jornais detêm-se a aspectos cotidianos do diabetes infantil, as revistas dedicam-se às questões científicas. Tais dados revelam que a mídia faz uso de diferentes abordagens ao representarem o mesmo fenômeno social, por meio de maior atenção de um determinado aspecto da notícia e público-leitor, repercutindo no modo de produção e/ou modificação de como a sociedade confronta os fenômenos do cotidiano e a forma como os interpreta, promovendo novas representações.

Destarte, essas novas representações sociais elaboradas pela mídia, consistem na adaptação da representação às transformações do contexto por meio da integração de novos elementos ou da modificação de outros em função da complexidade do fenômeno. Assim, consideram-se as representações sociais como meio de (re) criar a realidade.

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Recebido: 19 de Março de 2017; Aceito: 11 de Junho de 2017

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